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Análise da Água de Poço Artesiano para o Seu Dia a Dia

antigendesenvacina
13 de jun.
5 min de leitura

Milhões de brasileiros dependem de poços para o abastecimento de água em propriedades rurais, condomínios, indústrias e até residências urbanas. Mas, ao contrário do que muita gente pensa, a água subterrânea não é automaticamente pura e segura. Sem análise e monitoramento adequados, ela pode representar um risco real à saúde.


Afinal, o que é um poço artesiano?

O termo “artesiano” é bastante usado no Brasil, mas muitas vezes de forma equivocada. Um poço artesiano verdadeiro é aquele em que a água sobe naturalmente até a superfície por pressão, sem necessidade de bomba. Na prática, a maioria dos poços perfurados no país são semiartesianos a água está no aquífero, mas precisa ser bombeada.

De qualquer forma, o que importa para a análise é que estamos falando de água subterrânea, captada diretamente de aquíferos. E aqui começa a responsabilidade do proprietário.


A água de poço é segura para beber?

Pode ser, mas isso só se confirma com análise laboratorial. A água subterrânea circula por camadas de solo e rocha, o que naturalmente filtra muitas impurezas. Por isso, a crença popular de que “água de poço é pura” tem alguma base, mas é uma generalização perigosa.

A realidade é que a qualidade da água de poço depende de uma série de fatores:

  • Geologia local — solos com alto teor de ferro, manganês, flúor ou arsênio podem contaminar naturalmente a água;

  • Proximidade de fossas, currais, lavouras ou aterros — risco de contaminação microbiológica e por agrotóxicos;

  • Integridade da estrutura do poço — poços mal revestidos ou sem tampa permitem entrada de água superficial contaminada;

  • Distância de outras fontes de poluição — postos de combustível, cemitérios e indústrias químicas.


Qual a legislação que regula a qualidade da água de poço?

Diferente da água de abastecimento público regida pela Portaria GM/MS nº 888 do Ministério da Saúde, a água de poço para uso humano tem como principal referência ambiental a Resolução CONAMA nº 396.

Essa resolução classifica as águas subterrâneas por finalidade de uso e estabelece valores de referência de qualidade (VRQ) e valores de prevenção (VP) para dezenas de substâncias. Os usos contemplados incluem:

  • Consumo humano com desinfecção simples;

  • Consumo humano com tratamento convencional;

  • Irrigação de hortaliças e frutas consumidas cruas;

  • Dessedentação de animais;

  • Uso industrial.

Para que a água do poço possa ser consumida diretamente, ela precisa atender aos padrões de potabilidade definidos pela Portaria GM/MS nº 888/2021, que são os mesmos exigidos para a água de abastecimento público. Ou seja, a legislação não flexibiliza os critérios de qualidade pelo simples fato de a água vir de um poço.


Quando fazer a análise?

Mais importante do que realizar a análise uma única vez é estabelecer um monitoramento periódico da qualidade da água subterrânea. A Resolução CONAMA nº 396/2008 e as boas práticas do setor recomendam acompanhamento contínuo dos parâmetros físico-químicos e microbiológicos.

 

Tipo de Análise

Frequência Recomendada

Referência

Microbiológica (básica)

A cada 6 meses

Portaria GM/MS nº 888/2021

Físico-química básica

Anualmente

ABNT NBR 12212:2017

Físico-química completa

A cada 2 anos ou em caso de alteração

CONAMA nº 396/2008

Agrotóxicos / metais

Conforme avaliação de risco local

CONAMA nº 396/2008

Após eventos extremos (enchentes, reformas)

Imediatamente

Boa prática / ABNT NBR 12244

 

Além da periodicidade regular, existem situações que exigem análise imediata, independentemente do calendário:

  • Após enchentes ou alagamentos na área do poço;

  • Quando a água apresentar cheiro, cor ou sabor diferentes do habitual;

  • Após qualquer obra próxima ao poço ou na propriedade;

  • Em caso de surto de doenças gastrointestinais entre os usuários da água;

  • Quando houver alteração no nível estático ou na vazão do poço.


Quais parâmetros analisar?

O pacote de análise ideal para água de poço varia de acordo com o uso e a região, mas existe um conjunto básico recomendado que cobre os principais riscos à saúde. A tabela a seguir apresenta os parâmetros mais importantes, com os limites estabelecidos pela Portaria GM/MS nº 888/2021:

 

Parâmetro

O que indica

Limite (Portaria 888/2021)

Unidade

Escherichia coli

Contaminação fecal

Ausência em 100 mL

UFC/100 mL

Coliformes totais

Indicador sanitário geral

Ausência em 100 mL

UFC/100 mL

pH

Acidez / alcalinidade

6,0 a 9,5

Adimensional

Turbidez

Partículas em suspensão

5 UNT (consumo)

UNT

Nitrato

Contaminação por fertilizantes / esgoto

10 mg/L

mg/L N

Ferro total

Corrosão / solo

0,3 mg/L

mg/L

Manganês

Geológico / manchas

0,1 mg/L

mg/L

Dureza total

Sais de cálcio e magnésio

500 mg/L

mg/L CaCO₃

Condutividade elétrica

Quantidade de sais dissolvidos

Parâmetro indicativo

µS/cm

 

Em regiões com atividade agrícola intensa, é altamente recomendável incluir no pacote a pesquisa de agrotóxicos (herbicidas, fungicidas e inseticidas) e nitrato, um dos contaminantes mais frequentes em áreas rurais, associado ao uso excessivo de fertilizantes nitrogenados e à presença de fossas.


Como coletar a amostra corretamente?

A coleta de amostras é uma etapa crítica: uma amostra mal coletada pode invalidar toda a análise. A ABNT NBR ISO 5667-11 traz diretrizes específicas para esse tipo de coleta.

Os principais cuidados são:

  • Deixar a bomba funcionando por pelo menos 15 a 30 minutos antes da coleta, para garantir que a água represente o aquífero e não a água parada na tubulação;

  • Utilizar frascos fornecidos pelo próprio laboratório — cada análise possui recipiente específico, com ou sem conservante;

  • Para análises microbiológicas, realizar a coleta em frasco estéril, sem enxaguar, diretamente em torneira previamente higienizada e desinfetada;

  • Não tocar a parte interna do frasco ou da tampa;

  • Manter as amostras refrigeradas (entre 2 °C e 8 °C) e encaminhá-las rapidamente ao laboratório, especialmente para parâmetros microbiológicos.


Conclusão

A análise de água de poço artesiano não é burocracia: é proteção. Em um país como o Brasil, onde uma parcela significativa da população rural e periurbana depende de fontes alternativas de abastecimento, o monitoramento da qualidade da água subterrânea é uma questão de saúde pública.

Se você utiliza água de poço em residências, propriedades rurais, restaurantes ou indústrias, o monitoramento periódico da qualidade da água é essencial para prevenir riscos associados à contaminação hídrica. E o laudo laboratorial é a única forma segura de saber, de fato, o que está presente na água consumida.


Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 888, de 4 de maio de 2021. Estabelece os procedimentos de controle e de vigilância da qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 7 maio 2021.

BRASIL. Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). Resolução nº 396, de 3 de abril de 2008. Dispõe sobre a classificação e diretrizes ambientais para o enquadramento das águas subterrâneas. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 7 abr. 2008.

BRASIL. Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH). Resolução nº 15, de 11 de janeiro de 2001. Estabelece diretrizes gerais para a gestão integrada das águas subterrâneas. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 22 jan. 2001.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 12212:2017. Projeto de poço para captação de água subterrânea. Rio de Janeiro: ABNT, 2017.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 12244:2006. Construção de poço para captação de água subterrânea. Rio de Janeiro: ABNT, 2006.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR ISO 5667-11:2018. Qualidade da água — Amostragem — Parte 11: Orientação para amostragem de águas subterrâneas. Rio de Janeiro: ABNT, 2018.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 15495-1:2007. Poços de monitoramento de águas subterrâneas em áreas contaminadas — Parte 1: Projeto e construção. Rio de Janeiro: ABNT, 2007.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 15495-2:2008. Poços de monitoramento de águas subterrâneas em áreas contaminadas — Parte 2: Desenvolvimento. Rio de Janeiro: ABNT, 2008.

 
 
 

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