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Piscina limpa não é piscina segura: Qualidade da água em piscinas

antigendesenvacina
13 de jun.
4 min de leitura


Parâmetros, frequência e legislação

Uma piscina com água cristalina não é necessariamente uma piscina segura. Cor e cheiro podem enganar, e a verdade sobre a qualidade da água só aparece quando se faz a análise correta. Entender os parâmetros certos e a frequência adequada de monitoramento é essencial para proteger a saúde de quem utiliza a piscina.


Piscina limpa não é piscina segura

Esse é um dos principais equívocos de quem cuida de piscinas sem embasamento técnico. A água pode estar visualmente transparente e ainda assim abrigar bactérias como Pseudomonas aeruginosa e Staphylococcus aureus, responsáveis por infecções de ouvido, olhos e pele, algumas delas bastante resistentes a antibióticos.

Por outro lado, uma piscina com cloro em excesso também é um problema: irrita as mucosas, provoca ressecamento da pele e dos cabelos e pode indicar desequilíbrio no tratamento da água. O segredo está no equilíbrio e esse equilíbrio só é garantido com análises regulares e bem executadas.

No Brasil, a principal referência técnica para piscinas é a ABNT NBR 10818, que estabelece os parâmetros físico-químicos e microbiológicos utilizados para avaliação da qualidade da água de piscinas, além de orientar o monitoramento desses parâmetros.


Os parâmetros físico-químicos essenciais

O tratamento de piscinas envolve o controle de uma série de variáveis interligadas. Alterar uma delas afeta diretamente as demais, por isso o monitoramento deve ser contínuo e completo. Entre os principais parâmetros utilizados para avaliação da água de acordo com a ABNT NBR 10818, são:

 

Parâmetro

Faixa Ideal

O que acontece fora da faixa

Frequência mínima

pH

7,2 a 7,6

Irritação nos olhos/pele; ineficiência do cloro

Diário

Cloro residual livre

0,8 a 3,0 mg/L

Sem desinfecção adequada ou irritação da mucosa

Diário

Cloro combinado

< 0,5 mg/L

Cheiro forte de cloro; irritação

Diário

Turbidez

≤ 5,0 UNT

Visibilidade reduzida; risco de afogamento

Semanal

Alcalinidade total

80 a 150 mg/L CaCO₃

pH instável; corrosão ou incrustações

Semanal

Dureza total

150 a 500 mg/L CaCO₃

Depósitos calcários ou corrosão de equipamentos

Semanal

 

O pH é um dos parâmetros mais críticos no tratamento da água de piscinas. Quando está abaixo de 7,2, a água se torna mais corrosiva e pode causar irritação nos olhos, na pele e em componentes metálicos. Quando ultrapassa 7,8, o cloro perde grande parte de sua eficiência desinfetante. Em pH 8,0, por exemplo, apenas cerca de 20% do cloro permanece na forma ativa (ácido hipocloroso). Isso significa que manter o pH adequado é fundamental para garantir a eficiência da desinfecção.


Os parâmetros microbiológicos

A análise microbiológica é a que mais diretamente avalia o risco à saúde dos usuários. Ela deve ser realizada por laboratório capacitado e com coleta adequada. Os principais microrganismos monitorados são:

Parâmetro

Padrão exigido

Risco associado

Pseudomonas aeruginosa

Ausência em 100 mL

Otite, infecções de pele e pneumonia

Coliformes totais

Ausência em 100 mL

Indicador de falha na desinfecção

Escherichia coli

Ausência em 100 mL

Contaminação fecal; gastroenterites

Staphylococcus aureus

Ausência em 100 mL

Infecções de pele e olhos

Contagem de heterotróficos

< 500 UFC/mL

Biofilmes e degradação da qualidade

Cândida albicans

Ausência em 100 mL

Infecções de pele (micoses)

 

A Pseudomonas aeruginosa merece atenção especial, pois possui capacidade de formar biofilmes em tubulações, filtros e superfícies da piscina, dificultando sua eliminação apenas com cloração convencional. Sua presença pode indicar deficiência na circulação, filtração ou higienização do sistema.


Erros mais comuns no tratamento de piscinas

Mesmo com produtos disponíveis e fácil acesso à informação, alguns erros continuam sendo bastante frequentes:

  • Adicionar cloro sem corrigir o pH previamente — em pH inadequado o cloro perde eficiência;

  • Utilizar apenas fitas colorimétricas como controle — esse método possui baixa precisão e não substitui análises laboratoriais;

  • Negligenciar a limpeza dos filtros — filtros saturados reduzem a circulação e favorecem a formação de zonas sem tratamento;

  • Superdosar o cloro acreditando que “mais é melhor” — além de irritar os usuários, o excesso pode degradar revestimentos e equipamentos;

  • Não registrar os tratamentos realizados — normas sanitárias locais frequentemente exigem controle e registro operacional;

  • Ignorar o ácido cianúrico em piscinas externas — em excesso, ele reduz a eficiência do cloro; em baixa concentração, o cloro se degrada rapidamente pela radiação solar.


Como deve ser feita a coleta para análise laboratorial?

A coleta correta é essencial para garantir resultados representativos da condição real da piscina. A ABNT NBR ISO 5667-3 estabelece orientações importantes para preservação e manuseio das amostras.

Entre os principais cuidados estão:

  • Coletar a amostra na área de circulação dos usuários, a aproximadamente 30 cm de profundidade;

  • Evitar coleta próxima aos retornos de água e dispositivos de circulação;

  • Utilizar frasco estéril fornecido pelo laboratório para análises microbiológicas;

  • Utilizar frascos contendo tiossulfato de sódio para neutralização do cloro residual;

  • Manter as amostras refrigeradas entre 2°C e 8°C;

  • Encaminhar a amostra ao laboratório preferencialmente em até 6 horas;

  • Evitar coleta imediatamente após adição de produtos químicos.


Conclusão

Manter a qualidade da água de uma piscina vai muito além da simples adição de cloro. Trata-se de um processo técnico que envolve equilíbrio químico, controle microbiológico, manutenção adequada e monitoramento periódico.

A realização de análises laboratoriais permite identificar falhas no tratamento antes que elas representem riscos à saúde dos usuários. Em piscinas coletivas, além de uma medida de segurança, o monitoramento adequado também atende às exigências sanitárias aplicáveis.


Referências

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 10818:2015. Água de piscina — Requisitos de qualidade da água. Rio de Janeiro: ABNT, 2015.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR ISO 5667-3:2019. Qualidade da água — Amostragem — Parte 3: Preservação e manuseio de amostras de água. Rio de Janeiro: ABNT, 2019.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 10339:2018. Piscina — Projeto, execução e manutenção. Rio de Janeiro: ABNT, 2018.

WHITE, George Clifford. Handbook of Chlorination and Alternative Disinfectants. 4. ed. New York: John Wiley & Sons, 1999.

BRASIL. Município de Curitiba. Secretaria Municipal da Saúde. Resolução SMS nº 40, de 4 de dezembro de 2012. Regulamenta norma técnica sobre o licenciamento e funcionamento de piscinas públicas e privativas do Município de Curitiba. Curitiba: Secretaria Municipal da Saúde, 2012.

 
 
 

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